Crédito: Diário do Comércio / Isa Cunha  – Reportagem de Daniela Maciel  – Link matéria original

Empreendedorismo na internet

Nesta edição de Mulheres de Impacto – série de entrevistas do Diário do Comércio com gestoras mineiras de empresas e organizações de grande importância na economia do Estado – a convidada é Anna Clara Rios. 

Mais conhecida como Anninha, ela tem quase um milhão de seguidores por ano de vida. Nativa digital, tem nas crianças o seu principal público e leva como poucos a transição do mundo digital para o físico. Com mais de 20 milhões de seguidores, Anninha lançou uma marca de produtos com o próprio nome e é a proprietária da Studios Anninha, uma loja de 200 metros quadrados no Só Marcas Outlet, em Contagem (Região Metropolitana de Belo Horizonte), e já tem planos para a expansão.

Você é muito jovem, só tem 25 anos e já é uma empresária. Como você se transformou em influenciadora digital? Teve um planejamento pra isso? 

A minha história foi muito engraçada, porque eu sempre fui muito nerd, então eu sempre fui muito focada nos meus estudos. Eu estava no meio do curso de Engenharia de Produção quando aconteceu a pandemia e, com ela, uma explosão da internet. Eu me vi um pouco perdida e, como eu estava no momento em iniciar um estágio na minha área e a minha faculdade ficou um ano parada, decidi entrar nesse mundo da internet. Acabei me encontrando no nicho de entretenimento infantojuvenil e hoje eu sou muito feliz.

Ser uma influencer de sucesso estava nos seus planos ou aconteceu por acaso?

Tem muito planejamento por trás do canal. São apenas quatro anos, passa muito rápido, mas com a internet eu estou conectada há mais ou menos uns oito anos. Eu tinha amigos na área e decidi traçar o meu próprio caminho. Eu tinha esse objetivo e fui ganhando conhecimento, sempre com muito planejamento por trás.

Muitas pessoas não enxergam o YouTube como um trabalho. Parece que é só pegar a câmera, ligar e fazer, mas tem todo um trabalho por trás. Então é um estudo diário, constante. Eu nunca canso de aprender. Hoje um método funciona, o conteúdo funciona, mas amanhã pode ser que nada disso funcione. Então a gente tem que estudar o tempo inteiro.

Então o segredo é “ensaiar” o improviso?

As pessoas acham que é tudo improviso. Eu sento, eu escrevo. Eu tenho uma equipe que revisa, que escreve junto comigo, que testa e aí uns 5% têm improviso, porque as coisas vão acontecendo. É claro que tem  o fator natural. Eu acho que tem algo que é intrínseco, é o talento e a espontaneidade.

E como isso pesa sobre alguém tão jovem?

Hoje as coisas ficam obsoletas muito rápido. A internet é um mercado extremamente acelerado e competitivo. Mas a engenharia também tem pressão. A faculdade é algo que exige demais, então você tem aquela pressão do “eu tenho que estar à altura”. Então, eu acho que cada trabalho tem seu peso.

No caso da internet, as coisas são mais aceleradas e o mercado é muito volátil. Nesse mês você está muito bem, no mês que vem, se não acompanha, pode ser que os números caiam.  Você tem que ter um psicológico muito forte, então é legal estar sempre trabalhando isso para não se abalar.

Eu não me conformo com os números negativos. Eu aceito, entendo, mas eu sento e estudo para saber o que eu posso fazer de diferente.

Você já enfrentou os haters

Todo mundo, né? Na internet não tem jeito. Mas no meu caso, como eu trabalho com o público infantil, eu sinto que eu estou numa bolha. A criança é muito sincera. Se ela te ama, ela te ama muito e se não ama, ela fala na ‘sua cara’.

Você falou que esse nicho é um pouco mais protegido. Seus seguidores  são as crianças e elas não tem esse ódio. Mas você também é empresária. O machismo de todo dia já apareceu para todas, mas e para você?

Eu acho que só pelo fato de ser mulher, infelizmente, todo mundo tem alguma história para contar. No mercado da engenharia eu senti mais isso na pele, principalmente quando eu fazia edificações. Os meus chefes eram sensacionais, mas com os clientes eu sofria isso na pele, porque eu era uma mulher muito jovem. Então, quando era conveniente: “Ela sabe o que ela tá falando”. Mas quando não era: “Ela não entende de construção”.

No YouTube percebo que as pessoas fomentam a competição entre as mulheres. Tem sempre uma comparação. Somos ensinadas desde novas a competir e isso não é benéfico para a gente. Acredito que temos que enaltecer outras mulheres, que a gente tem que ajudar e admirar.  É um passo para a gente tentar mudar esse cenário. É muita responsabilidade conversar com um público muito novo, então eu sei do peso dessa responsabilidade. 

Até aqui você sempre conversou com pessoas abaixo da sua idade. Você avalia uma adaptação no perfil do seu trabalho para “crescer” junto com o público ou para continuar atendendo as crianças do futuro? 

A minha estratégia atualmente é ir renovando o meu público. O canal recebe 600 mil novos inscritos todos os meses. Então eu sei que as crianças que me acompanhavam há quatro anos não são as que me acompanham hoje em dia. A minha estratégia é estudar conteúdos novos. É cada vez mais difícil impressionar as crianças. Então, é um trabalho de muito estudo para me manter atualizada. 

Você já teve mais de 4 bilhões de visualizações no Youtube e só no famoso post do avião mais de 4,7 milhões. Pode nos contar a história do avião coberto de figurinhas?

O Mário Valadares é um grande amigo meu e um empreendedor sensacional. Era época da Copa do Mundo ele disse que eu poderia fazer o que quisesse com o avião. Havia uma tendência entre os youtubers de colar figurinhas em carros e outros objetos. Como influenciador, você não pode perder uma tendência. Mas eu sempre faço do meu jeito. Pensei: se está todo mundo completando o álbum, vou completar um avião. O Mário topou e deu uma repercussão gigantesca. Foram mais de 80 mil figurinhas da Copa do Mundo. Fizemos um evento com mais de 5 mil pessoas super divertido.

E como é o seu dia a dia? 

Temos todo um planejamento por trás, tem uma estrutura de gravação. Segunda é o meu dia de planejamento e estudo. Hora de pensar o que eu posso fazer de diferente, como posso inovar. De terça a quinta são os dias de gravação e, na sexta, geralmente é a minha diária no Instagram. É uma rotina muito regrada. Então eu sempre tento trazer esses projetos, essas ideias novas e essa foi assim. Agora, no total, ao longo dos quatro, não 4 bilhões de views. O post mais visto passou de 20 milhões de visualizações.

Você está fazendo uma transição muito interessante do digital para o físico. Como foi esse planejamento e você participa do dia a dia dos negócios?

Às vezes dá vontade de me clonar em três pra conseguir dar conta de tudo. É muito importante criar essa conexão com o mundo real também, porque, afinal, é onde a gente vive. Eu quero fazer mais projetos e mais coisas no mundo real, que unam famílias e que tragam as crianças para mais perto de mim. Eu não trabalho em cada etapa do processo de desenvolvimento, mas eu aprovo porque é o meu nome que está lá.

Você hoje tem uma loja no Só Marcas. Já tem planos para outras?

Eu gosto de trazer inovações e a ideia da loja no shopping foi justamente isso: um espaço físico para o meu seguidor visitar. Isso como exposição de marca. Foi uma loucura para lançar o projeto. A loja é linda. Eu sei que eu tenho muito pra aprender ainda quero expandir esse projeto. Foi muito lindo ver isso acontecendo e ver o impacto que isso teve diretamente, tanto nas vendas do canal, tanto no mundo digital quanto no feedback real. As pessoas se sentiram mais próximas de mim unicamente por ter esse espaço físico, por estarem lá.

Vamos expandir, mas ainda não sei se com lojas próprias ou franquias. Mas a próxima unidade eu quero dentro do meu estúdio. Eu estou lançando uma casa de gravação na região da Pampulha. É um projeto que eu também quero trazer inovação. Será uma casa de porta pra rua aberta para o público. 

Não satisfeita com tudo isso que já falamos, você tem um bloco de Carnaval dedicado às famílias. Como foi esse ano? E qual a importância do bloco para a marca “Anninha”? 

Esse ano foi a segunda edição. Veio dessa ideia de trazer mais projetos para o mundo real, sair um pouquinho do digital e trazer as crianças para viverem também no mundo real. É uma atração super bacana, só que tem o valor do ingresso. A nossa ideia condiz com o Carnaval, uma festa de rua que tem que ser democrática. A nossa banda é composta por crianças. Criamos uma identidade maravilhosa. Tivemos um feedback super positivo. 

Vou te pedir a mesma coisa que pedi às outras entrevistadas: a indicação de uma ou duas mulheres inspiradoras que a gente possa seguir nas redes ou ler a biografia delas ou um livro que elas tenham escrito.

Então essa pergunta eu acho incrível. A gente tem que ser ensinado a admirar outras mulheres, enaltecer outras mulheres. Então eu queria trazer aqui alguns nomes. Uma mulher que eu acho sensacional: a Camila Achutti. Ela apareceu na Forbes, a ONU reconheceu a empresa dela, que tem como missão democratizar o acesso ao ensino tecnológico para as pessoas que estão à margem desse setor. Então, acho uma ideia muito inovadora. E ela defende a inclusão do acesso a esse ensino tecnológico e das mulheres também em posições de liderança. Ela deu uma entrevista, uma frase dela que me marcou: “As mulheres em posição de liderança não têm que ser tratadas como exceção e sim como potência”.

 O segundo nome que eu queria trazer é a Rafaela Nejim. Ela foi head de marketing do Supernosso. Ela é incrível, inteligentíssima e eu acho bacana porque ela transitou por essa área do marketing de um grupo gigante e foi investir para ser influenciadora. O nicho dela é branding e imagem pessoal. E ela ainda é mãe e ainda compartilha sobre a maternidade dela, então acho ela uma super-heroína de conseguir conciliar todas essas coisas. 

E vou falar mais um nome: a Vanessa Ferreira. Ela é empreendedora e minha prima. Ela é dona do Minas Pipoca, uma das maiores empresas do Brasil de pipoca que começou vendendo pipoca na rua. Hoje ela vende no Mineirão, no Maracanã. Ela tem uma força incansável, ama trabalhar e vai atrás do que quer. E eu acho isso inspirador.

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